A novela dos “golpes” continua: a chefe de Estado, na ONU, golpeia o Brasil


Gibson da Costa

Afirmei várias vezes ser contrário ao processo de impedimento da Presidente da República por razões unicamente utilitaristas. Minha experiência de vida já me fazia imaginar as consequências para a imagem internacional do país, e o que poderia resultar economicamente disso. Pensava, e penso, que haveria possibilidades alternativas para lidar com os óbvios problemas da administração rousseffiana, assim como com, especificamente, as acusações feitas pela oposição, pelo Tribunal de Contas da União, por “delatores” etc.

As campanhas eleitorais de 2014 já demonstravam o nível de argumentação tanto da candidata à reeleição Dilma Rousseff quanto de seu principal opositor, Aécio Neves. Por isso, quando a Presidente começou a utilizar o argumento desastroso de que havia um “golpe” em curso no Brasil, não me surpreendi. O argumento sempre foi parte do repertório de sua agremiação política e, num país como o Brasil, serve como excelente incitador de paixões partidaristas e péssimo agente de senso crítico.

O grande problema com o argumento de que há um “golpe de Estado” no Brasil, entretanto, é que além de incorreto e desonesto – como já escrevi aqui antes, há um “golpe político”, não um “golpe de Estado” (que são coisas diferentes) –, é também extremamente negativo para a economia que já sofre com os males duma administração incompetente.

A declaração que será feita pela Presidente Dilma Rousseff, amanhã na ONU, de que é vítima de um “golpe” promete trazer consequências ainda mais desastrosas para o Brasil. E essas consequências poderão ser irremediáveis a médio prazo. Ela se prepara para declarar ao mundo que o Brasil em nada se difere de países como a Venezuela, por exemplo; que o Brasil não tem instituições confiáveis, e que aqui a Constituição é ignorada inclusive pelo próprio STF.

Já imaginou o que o mundo pensa quando a chefe de Estado e Governo dum país pouco compreendido no cenário global diz isso sobre seu próprio país dum púlpito da ONU?… Você não precisa imaginar, só precisará acompanhar as notícias econômicas que se seguirão!

Dilma Rousseff tem confundido seus diferentes papeis desde que todo esse processo de abertura de impedimento se iniciou. Ela transformou o Palácio do Planalto em palanque eleitoral. Ela tolerou ataques a uma rede de TV, por seus discípulos, dentro do palácio – permitindo o envolvimento da imagem da instituição que ela representava no momento (a Presidência da República) com o ataque ao trabalho duma organização da imprensa (o que constitui uma péssima escolha para um governante de qualquer democracia, e que coloca o Brasil no mesmo cenário patético da Presidência venezuelana). E agora, enquanto chefe de Estado, na ONU, falará como “chefe de governo” ofendida e enterrará o Brasil ainda mais na lama de sua incompetência política.

O Brasil que apoia ditadores, enquanto critica e ataca os EUA e a Europa por fazerem o mesmo; o Brasil que se vendia, até muito recentemente, como o melhor candidato para um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU, ao mesmo tempo em que é incapaz de proteger seus próprios cidadãos no dia a dia; o Brasil que se tornou a piada universal por ter uma Presidente cercada de ministros e funcionários de alto escalão investigados e/ou julgados por corrupção; o Brasil com uma Presidente que não se importa de sujar sua imagem para proteger um ex-Presidente investigado por crimes; esse Brasil, na pessoa de sua Presidente, declarará aos confins da Terra ser uma Republiqueta de Bananas, e os idiotas partidaristas acham que é normal e aceitável!

Não há um golpe de Estado. O que atingiu Dilma Rousseff pode ser chamado de golpe político – um golpe costurado por sua incompetência em negociar, acordar, governar. Um golpe de Estado, contudo, implicaria que não temos leis que funcionam, que não temos cortes independentes, que não temos uma Constituição capaz de nos proteger. E isso é uma mentira. O rito do processo foi seguido, até agora, dentro da Lei. Ela pode recorrer ao Judiciário se pensar estar sendo injustiçada. Enquanto cidadã e chefe de governo, pode continuar a dar seus espetáculos eleitoreiros para jornalistas estrangeiros. Mas, a partir do momento em que fala na ONU, o faz como Chefe de Estado, representando a instituição da República Federativa do Brasil. Sua declaração, se se confirmar, será – esta sim – um golpe contra o Brasil, que os menos instruídos não compreenderão até que sofram ainda mais no bolso.

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