sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Oakeshott versus a “revolução”: algumas perguntas aos amigos politicamente conservadores




Assim, ser conservador é preferir o familiar ao desconhecido, preferir o tentado ao não tentado, o fato ao mistério, o real ao possível, o limitado ao ilimitado, o próximo ao distante, o suficiente ao superabundante, o conveniente ao perfeito, a felicidade presente à utópica. […]

Michael Oakeshott, Sobre ser conservador [1956]


Os escritos do filósofo Michael Oakeshott tiveram uma grande presença em minha formação intelectual e acadêmica. Lembro-me que um de meus professores de Filosofia Política costumava sempre encerrar suas aulas como uma citação de Oakeshott (acompanhada de outra de Edmund Burke), como pretexto para que nos preparássemos para debater algum tema controverso. Sim, aquele meu professor era um “conservador” (algo talvez impensável para a maioria dos universitários brasileiros), um dos intelectuais mais brilhantes que já conheci e que exerceu influência sobre mim. Isso, claro, foi numa instituição socialmente seletiva, tradicional e elitista no interior da Pensilvânia, onde a vida de alunos e professores é governada por um Código de Honra que todos aceitam e no qual todos confiam – onde os alunos, por exemplo, fazem provas sem nenhuma fiscalização, porque todos confiam na honestidade uns dos outros. De certa forma, as palavras de Oakeshott citadas acima faziam muito sentido para aquela minúscula turma, mesmo que nem todos nós (eu, inclusive, como um declarado liberal) concordássemos com as posições defendidas pelo autor ao longo de todo o texto.

Oakeshott tratou o conservadorismo muito mais como uma disposição do que como um conjunto de doutrinas. O conservadorismo, para Oakeshott, seria uma disposição ou inclinação para usufruir do que está presente e disponível – e não algo que estivesse num futuro desconhecido e inseguro. Essa percepção da confiança no já tentado e vivido – que não deve ser confundido com uma indisposição para com a inovação, só que essa deve ocorrer de forma pensada, madura e segura (o autor diferenciava a “inovação” da “mudança”) – deveria apelar aos autodeclarados “conservadores” brasileiros de hoje, que parecem desejar uma “revolução” conservadora na política nacional. Para Oakeshott, ao menos em seu clássico “Sobre ser conservador” (1956) – de onde saiu o trecho citado na epígrafe deste texto –, a “mudança” se apresentaria primeiramente como uma “depravação”, porque apressada e irrefletida. “Mudança”, em seu vocabulário, seriam as alterações a nós impostas; “inovações”, por outro lado, seriam aquelas alterações que poderíamos planejar e executar.

Se fizermos um exercício de contextualização, nos lembrando sobre que “mudanças” preocupavam Oakeshott, naquele mundo pós-guerra, poderíamos, talvez, aplicá-lo à presente situação brasileira. Não seria o clamor pela “dissolução” (para usar um termo musicalmente sonoro) do governo, através da traumática guerra cultural às avessas – porque parece que agora são os supostos conservadores e/ou liberais que recitam a cartilha gramsciana –, uma aposta no desconhecido, no não “tentado”? Conhecendo-se as instituições de Direito, não seriam elas o “familiar”, o “tentado”, o “fato”, o “limitado”, o “próximo”, o “suficiente”, o “conveniente”, a “felicidade presente” (porque assegurada pela ordem constitucional)? Não seriam os gritos pró-impeachment advindos de membros do Congresso, de partidos políticos e de movimentos sociais conservadores uma aposta na “mudança” irrefletida, “depravada”?

Só algumas perguntas para os autodeclarados conservadores do Brasil! Estou disposto a ouvir (ou melhor, ler) suas respostas!

Gibson

O Brasil de ontem e de hoje

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