sexta-feira, 21 de agosto de 2015

Das manifestações pró-Governo de ontem: primeiras impressões


Gibson da Costa

O Brasil apresenta certas bizarrices políticas que deveriam incomodar a todos os cidadãos, especialmente à “elite dos instruídos”. Como todos sabem, a vida política brasileira é um tabuleiro, no qual as peças jogadas dum lado para outro são os eleitores. E os que poderiam contribuir para uma criticidade maior dos cidadãos, e penso aqui nos profissionais do Jornalismo e das Universidades, mostram-se acorrentados a lealdades corporativistas antiquadas – afinal de contas, tanto as redações quanto as universidades brasileiras são lideradas e dominadas por profissionais [intelectuais?] mais comprometidos com seu partidarismo pró-governista (o Governo da era PT, isto é) do que com um pensamento político crítico (uso o termo no sentido kantista, a propósito).

Isso se tornou explícito ontem, com os manifestos pró-Governo nas ruas e as vozes instruídas dos apoiadores naqueles dois grupos profissionais – obviamente, os manifestantes os chamaram de “manifestos pró-democracia”, mas não era propriamente a democracia que defendiam: defendiam o Governo Dilma Rousseff (logo, era uma manifestação estritamente pró-governista).

Não há, obviamente, nada errado em qualquer cidadão apoiar publicamente o Governo no qual votou – como também não há nada de absolutamente errado em sair às ruas para protestar contra o Governo e mesmo querer sua deposição. O que é estranho, contudo, é que um Governo que se defina como “democrático” necessite dos mesmos tipos de estratégia utilizados por regimes iliberais e/ou autoritários, como os são as manifestações nas ruas patrocinados pelo Governo ou por partidos e/ou órgãos ligados a ele para simular um apoio massivo ao mesmo. E é triste ver profissionais que deveriam ser críticos a esse tipo de simulacro ideológico-partidário tomar parte e incentivar a participação em tais atos a partir de sua função profissional. E é humilhante que seu partidarismo não permita que percebam isso no que fazem!

Por outro lado, a mesma imprensa brasileira, com seu temeroso discurso pós-2013 duma suposta “manifestação espontânea”, equalizou, muitas vezes (como também o fez com as manifestações antigovernistas do último domingo), o que ocorreu nas ruas ontem com a não-institucionalização dos ditos “movimentos sociais”. Mas como o que ocorreu ontem foi espontâneo, se eram partidos, sindicatos, a UNE e outros grupos que estavam por trás de sua organização?… Não há espontaneidade se há liderança institucional e data marcada para atos. E isso se aplica tanto aos movimentos de apoio ao Governo quanto os contrários a ele!

Talvez precise definir o que seja um “movimento social” aqui, para que você compreenda o que digo. A expressão, apesar de não possuir uma definição única, é majoritariamente entendida como se referindo a algo que seja não-institucionalizado. O movimento social, assim, teria um caráter fluido, diferentemente de partidos políticos, sindicatos ou organizações formalmente organizados (isto é, com estatuto, sede, dirigentes eleitos etc). Assim, partidos políticos, a UNE, sindicatos etc – que formalmente participaram das manifestações de ontem – não são “movimentos sociais”. Simples assim! Chamá-los de “movimentos sociais”, como foi feito por alguns jornalistas/repórteres, é uma atitude no mínimo intelectualmente desonesta. [Atitude, a propósito, que em parte pode ser entendida quando pensamos nas acusações feitas à imprensa durante as manifestações/desordens de 2013.]

Mas, voltando às manifestações pró-Governo de ontem: sua vergonha reside, em parte, na demonstração da fraqueza do Governo Rousseff, que precisa do apoio desesperado de grupos aliados e de seu partido para vender uma imagem de legitimidade entre a população para a imprensa estrangeira – na verdade, não se dão conta do quão desesperado e autoritário isso parece, especialmente no mundo dito “desenvolvido”! Quando nos lembramos que regimes como os da Coreia do Norte, do Irã e de Cuba recorrem a esse tipo de estratégia – com cidadãos e grupos marchando em apoio ao Governo pelas ruas –, a natureza ridícula dessa estratégia fica evidente. O que me pergunto é: o Governo brasileiro realmente precisa desse tipo de carnavalização partidária para vender a imagem de que seja legítimo?… Deveria ser “triste” ver isso acontecer, para qualquer partidário do Governo Rousseff!


O Brasil de ontem e de hoje

Gibson da Costa Em 2013, incendiaram as ruas, em protestos contra a corrupção e o descaso. Em 2014, votaram absolut...