domingo, 12 de abril de 2015

Democracia, Liberdade e Idiotices: Mais uma vez, o melodrama pós-eleitoral brasileiro...


Governantes e seus governos não são “amigos” dos “governados”. Aliás, “governo” e “governados” já têm sua existência baseada numa normalíssima oposição de interesses. É só olhar para a história da relação entre governados e governantes em qualquer democracia: os governados sempre emitirão críticas pesadas àqueles que os governam, pois os segundos explicitam interesses opostos aos dos primeiros – por mais “bem-intencionados” que sejam ou queiram parecer.

Obviamente, há exceções à emissão de críticas aos governantes: trata-se das realidades das não-democracias e/ou das antidemocracias. Mas não é sobre essas realidades que penso agora.

Penso, agora, sobre a patética novela pós-eleitoral brasileira, que tem demonstrado ser uma comédia de muito mau gosto – em todos os aspectos. E essa novela tem aspectos bizarros para alguém que, como eu, tenha mais o que fazer com seu tempo. É uma novela onde não há heróis nem vítimas – só idiotas (no sentido dado ao termo pelos antigos latinófonos).

Um dos grupos de personagens dessa novela é formado pelos que não sabem “perder”. Sem argumentos sólidos, e sem base evidencial, exigem a deposição da Presidente da República, como se tal evento – se fosse justo e legal, o que não considero que (ainda) seja – não trouxesse consequências traumáticas para a vida institucional, política e econômica do país. Esse grupo é formado por subgrupos, cada qual com demandas distintas – algumas das quais têm muito mais a ver com alguma patologia psicótica do que com democracia!

Um outro grupo de personagens, os que detêm mais prestígio sociocultural, é formado pelos “defensores” da Presidente da República – e aí incluem-se desde os defensores condicionais da Presidente (i.e., os defensores racionais da instituição democrática do voto), até os militantes partidários que tendem a defender argumentos menos sofisticados (sim, os que preferem a retórica do “rico versus pobre”, “branco versus negro” etc).

Há, obviamente, a personagem principal dessa comédia melodramática: a própria Presidente da República – pivô da “guerra cultural” que aqueles diferentes grupos conseguiram tirar das cartilhas ideológicas e materializar no mundo real.

Como já escrevi tantas vezes antes, ainda não vejo razões legais para que ela seja impedida/deposta. Ainda não se apresentaram evidências nem provas de que tenha cometido algum crime que justifique tal ação. Ela foi eleita através dum processo democrático, e a democracia requer que a decisão da maioria seja legalmente respeitada.

Reconhecer isso, contudo, não me impede de ver a responsabilidade que ela – a Presidente – tem diante do que acontece em sua administração. Não me impede, também, de ver a sujeira das táticas eleitorais que levaram-na à reeleição. Mas isso não é suficiente para sair por aí exigindo seu impedimento/deposição. Até porque, se pensarmos a respeito, quem ocuparia seu lugar? Não seria exatamente quem já está no governo? (Algo que os manifestantes do “Fora Dilma” aparentemente não se dão conta!)

A idiotice de todos esses grupos de personagens – a Presidente e seu governo, seus apoiadores e os defensores do “fora!” – torna-se uma grande distração para o que deveriam estar fazendo.

No caso dos idiotas apoiadores do governo, como eleitores que puseram no poder o governo do dia, esses deveriam ser os primeiros a exigir a investigação dos envolvidos nas denúncias de corrupção e a punição dos culpados. Mas, em vez disso, saem às ruas para defendê-los, como se fossem perseguidos políticos. Elevam o governo petista ao altar heroico das entidades sacras e, quando há uma nova acusação por parte da Justiça ou Polícia Federal a um membro do partido ou do governo, perdem-se em argumentações infantis. Agem como se o governo estivesse a seu favor – tolamente desconsiderando a oposição à qual me referi anteriormente.

No caso dos idiotas pró-impedimento, não precisam se esforçar muito para virar piada para qualquer um que se dê ao trabalho de refletir. Muitos apresentam-se como “conservadores”, esquecendo que a tradição conservadora há muito é democrática. Muitos de seus argumentos irresponsáveis são a principal razão para que sejam – talvez erroneamente, no caso da grande maioria deles – classificados como “fascistas” pelos demais. Certos ou errados, conservadores ou fascistas, a retórica dos membros desses diferentes grupos me causa um imenso mal-estar – eles fazem com que minha visão liberal democrata de mundo se sinta extremamente ameaçada!

O que parece haver em comum entre os apoiadores do governo e os apoiadores do impedimento é sintomático da cultura política brasileira: uma forma extremada da teoria da conspiração da sociedade, da era da Guerra Fria, que serve como um alicerce sobre o qual erigem sua retórica política. Os anos passam, as circunstâncias mudam, mas a vida política brasileira continua aprisionada ao imaginário de meados do século XX.

Eu, que tenho mais o que fazer com meu tempo e minha vida, sou um adepto da Democracia Liberal, da Constituição, das Liberdades Civis, da Legalidade; logo, não me junto a quem desafia esses alicerces de meu credo político. Não sou partidário nem eleitor do governo, e por isso estou livre para criticá-lo – e se fosse partidário e eleitor do mesmo, o criticaria ainda mais. Não tenho heróis ou heroínas políticos, assim, fui, sou e espero continuar a ser implacável em minha oposição a todos aqueles que se aproveitam do “povo” para proveito próprio, estejam eles na “situação” ou na “oposição”.

Vida longa à democracia e à liberdade – mesmo que seja a sua ou minha liberdade para dizer idiotices!

+Gibson

O Brasil de ontem e de hoje

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