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"No princípio era o conflito..."

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

O espetáculo do terror e o assassínio de nossa humanidade


Qualquer interessado que se dê ao trabalho de pesquisar cuidadosamente o tema saberá que não há uma definição globalmente aceita do que seja terrorismo. Isso faz com que, como escrito por Brian Jenkins ainda em 1974, o termo seja usado promiscuamente, aplicado a todo tipo de violência que, estritamente falando, não seria terrorismo. Todas as mais frequentes definições de terrorismo, entretanto, concordam que o mesmo seja um instrumento utilizado por certos atores para atingir certos objetivos, espalhando medo e ansiedade por meio de atos violentos; e esses atos violentos seriam parte do instrumento, e não o objetivo per se (JENKINS, 1974; HOFFMAN, 1998; GANOR, 2005; NEUMANN, SMITH, 2008).

Se nos ancorássemos à antiga perspectiva de Jenkins, aceita até 2001, abraçaríamos aquela sua conhecida ideia de que terroristas queririam muita atenção e não muitas mortes. Hoje, apesar de haver mudado sua perspectiva acerca do número de mortes desejado por terroristas, o autor – e todos os demais especialistas em terrorismo do mundo – continua a defender sua crença de que a publicidade do ato seja uma característica central de qualquer ação terrorista. E a importância da publicidade reside no fato de esta servir de meio para alastrar o medo e a ansiedade generalizada.

Pare e pense, por um instante, no caso francês. Foi uma tragédia humana – e, para mim, tragédia em absolutamente todos os sentidos (no que tange às vítimas, à sociedade espectadora e aos próprios criminosos). Uma tragédia que nenhum de nós – supondo que você pense como eu – gostaria de ver repetir-se em lugar nenhum do globo.

Pare e pense, agora, na cobertura dada pela mídia global à “caçada” policial a esses criminosos. Diferentes jornais, revistas, redes de televisão e rádio, do mundo inteiro, têm feito seu trabalho e divulgado as notícias relativas ao caso. Mas a cobertura – que, sim, deve acontecer, especialmente num caso em que profissionais da imprensa foram vitimados –, principalmente quando feita de forma sensacionalista, não deixa de contribuir para o objetivo final de qualquer ação terrorista: conseguir publicidade suficiente para criar um temor e ansiedade generalizados. A notícia, assim, tão essencial à liberdade e à democracia, transforma-se numa espada de dois gumes: informa-nos ao mesmo tempo em que nos torna mais uma peça no tabuleiro do jogo do terror (cujo objetivo é vencer-nos pelo medo).

E a imposição de medo intentada por terroristas tem feito mais danos às liberdades civis, naquilo que chamam de Ocidente, do que tem causado mortes diretas. A maior morte causada pelo terrorismo nas sociedades ocidentais têm sido o assassínio das antigas ilusões de liberdade e igualdade sob a lei, como uma forma de assassínio de nosso senso moderno de humanidade. Pergunte isso a qualquer muçulmano na Alemanha, França, Grã-Bretanha ou Estados Unidos, só para citar alguns casos. Essas pessoas, inocentes dos crimes cometidos pelos supostos jihadistas que vimos nos noticiários nos três últimos dias, são as que antecipadamente já pagam o preço, tendo agredidas suas dignidades e liberdades. Esta é uma cena que tem se repetido desde, pelo menos, 2001. Soa, ironicamente, como uma grande vitória dos terroristas.

Hoje mesmo, mais 7 pessoas morreram em outro atentado em Islamabad, no Paquistão. Onze haviam morrido ontem, em outra região do país. Uma bomba explodiu dentro duma mesquita no Iraque – algumas dezenas de mortos. Você viu isso ser relatado em algum noticiário de onde você está? Por que não? Por que isso não afeta nossa sensibilidade? Isso não é uma afronta ao nosso senso de liberdade e dignidade? Não é uma afronta à nossa humanidade?... Só alguns pensamentos para terminar minha sexta-feira!

Gibson



Referências:

GANOR, B. The Counter-Terrorism Puzzle: a Guide for Decision Makers. New Brunswick: Transaction, 2005. p.1-24.

HOFFMAN, Bruce. Inside Terrorism. Nova York: Columbia University Press, 1998. p.13-44.

JENKINS, Brian. International Terrorism: a new kind of warfare. Santa Monica: RAND, 1974.

NEUMANN. Peter R.; SMITH, Michael Lawrence Rowan. The Strategy of Terrorism: how it works, and why it fails. Nova York: Routledge, 2008. p.1-11.