terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Pelo direito a ofender por parte de meus ofensores: ainda sobre a noite passada


Não me compreenda mal. Dificilmente você conhecerá alguém tão diplomático quanto eu, no que tange ao respeito àqueles que são, de alguma forma, diferentes de mim. Isso se justifica por minha história pessoal: várias vezes imigrante, de pele colorada, plurilinguístico, com ideias religiosas e políticas não muito populares... ser “diplomático” no que concerne às relações sociais é não apenas uma obrigação para alguém com meu background sociocultural, é uma questão de sobrevivência (já que não me encaixo facilmente em nenhuma categoria predeterminada).

Apesar da estratégia diplomática na gestão de minhas relações sociais, entretanto, defendo o direito à livre expressão de opinião, o que inclui, necessariamente, o direito a ofender a sensibilidade alheia.

Já posso até imaginar o que você está pensando! Então, é melhor esclarecer o que quero dizer por “ofender”, antes que você espalhe por aí que estou fazendo apologia à violência. Ofender, aqui, se limita a causar desconforto, provocar raiva e desgosto, irritar, contrariar, violar o pensamento e as regras alheias.

Ofender é uma das artificialidades mais “naturais” da existência social humana. Se crianças pequenas saírem às ruas nuas, ofenderão a sensibilidade da maioria dos adultos socioeconomicamente privilegiados. Se dois rapazes se beijarem em público, ofenderão a concepção que a maioria dos homens tem sobre masculinidade, em qualquer lugar do Brasil. Se, há não muito tempo atrás, uma mãe descasada trabalhasse fora, ofenderia o que a maioria dos brasileiros esperava duma “mulher respeitável”. Grandes mestres espirituais da humanidade ofenderam as sensibilidades de seus contemporâneos. Grandes literatos e artistas da modernidade ofenderam as sensibilidades artísticas de seus antecessores. Os exemplos de ofensores se multiplicam.

Ofendemos quando dizemos ou mostramos aquilo que não querem escutar ou ver. Somos ofendidos quando escutamos ou vimos aquilo que não queremos que digam ou mostrem. Ofendemos e somos ofendidos porque nenhum ser humano é igual. A tal igualdade não passa dum mito romântico que serve como antídoto à ofensa encarnada na diversidade humana. A ofensa, assim, desempenha um papel indispensável à liberdade de expressão e à afirmação da diversidade humana. Dessa forma, ela (a ofensa) não pode servir de ofendículo à liberdade de expressão.

Não temo a ofensa à minha sensibilidade. Xingar-me com termos que se refiram à minha cor, minha orientação emotivo-sexual, minha religião, meu credo político, minha profissão, minha nacionalidade, minha língua, meu background sociocultural etc, é apenas afirmar um fato – e se não um fato, uma mentira. Logo, para mim, é apenas um exercício da vida em meio à diversidade humana. Também não temo dizer o que penso. Tenho maturidade suficiente para continuar a ofender de forma diplomática!

Gibson

O Brasil de ontem e de hoje

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