Eleições e democracia: todos perdemos alguma coisa!


Desde o ano passado tenho dito a amigos que não acredito que a Presidente Dilma Rousseff perca as eleições. Ainda acredito nisso piamente, mesmo sendo eleitor da ridícula “oposição” (como já disse aqui antes, eles não merecem essa alcunha).

Na verdade, fui surpreendido por um segundo turno – o questionamento dos eleitores e eleitoras brasileiros me surpreendeu de forma positiva. Os defensores mais combativos do governo – isto é, aqueles que se perdem num oceano de incoerências discursivas e fanatismo político (da mesma forma como os mais combativos defensores do candidato Aécio Neves ou de qualquer outro candidato político) – se ofendem quando digo que foi extremamente positivo que Dilma perdesse no primeiro turno (sim, porque ela, de fato, perdeu, independentemente de conquistar o primeiro lugar; não se trata duma questão aritmética, mas, sim, simbólica). O invencível partido messiânico deparou-se com a dúvida do populacho crente, e viu-se obrigado a disputar o assento republicano, aos “tapas”, com um "pregador" menos potente. E isso poderia ser extremamente positivo para os messiânicos (PT e os “companheiros”), para os seguidores do novo pregador (PSDB e os “amarelos”) e para seus respectivos eleitores – claro, isso se todos eles fizerem seu dever de casa.

Como ainda penso que a Presidente se reelegerá – desejo que não, mas vivo com meus pés no chão, e não na Lua! –, ela deveria aprender com a lição que recebeu dos eleitores. Ninguém é invencível, independentemente de quão popular tenha se tornado. Na verdade, ninguém é unanimemente popular – que diga minha carreira pedagógica. Não custaria muito ela repensar um pouco suas estratégias políticas em seu provável segundo mandato.

Quanto à “oposição” – ainda acho que deveríamos pensar numa alcunha melhor para eles, já que só conseguiram se opor a seus próprios eleitores até agora –, já está mais do que na hora de se decidirem ao que se opõem, afinal de contas. O consenso político social liberal brasileiro torna meio “sem pé nem cabeça” a guerra entre PT e PSDB. Na verdade, ambos os partidos são praticamente a mesma coisa, quando se leva em consideração sua agenda mais ampla. Talvez seja mais que hora de o PSDB se refundar – ou o contrário, isto é, o PT se re-refundar, tornando-se mais claramente distinto do PSDB. As diferenças entre os dois, especialmente no campo econômico, é crendice que serve apenas para ser gritado por militantes cegos em tempos de campanhas eleitorais – só não vê isso quem não quer!

Não, não sou o perfeito idiota que acredita que o PSDB, e seu candidato, represente tudo o que há de limpo e virtuoso na política brasileira – o chamado “quarto poder” da república mostra uma realidade bem diferente disso (mais um ponto em comum com os “messiânicos”... quero dizer, com o PT)!

Mas há algumas poucas diferenças entre os dois grupos. E, na verdade, são justamente essas diferenças que me fazem manter minha adesão ao PSDB e me opor ao PT e sua candidata. A diferença mais importante está nas compreensões distintas entre os dois partidos a respeito das liberdades democráticas – coisa que desde o primeiro mandato de Lula (quando eu estava bem longe daqui) tem sofrido ameaças: refiro-me à liberdade da imprensa, por exemplo, algo que mantém uma posição dogmática em minha visão de mundo. Ademais, há ainda o mais recente movimento semi-autoritário da Presidente em tomar decisões que apenas o Legislativo poderia em detrimento do próprio Legislativo (classifiquem como quiserem o Legislativo: juridicamente, eles ainda são os “representantes do povo” – posição que a Constituição não concede aos chamados “movimentos sociais”). Isso, para mim, é mais que suficiente para me opor à visão de mundo dos candidatos “messiânicos” – e os chamo assim, por se venderem como salvadores da pátria, como merecedores exclusivos do qualificativo democrático (tanto que chegam a ser ridículos).

A lição mais importante que todos deveriam aprender, entretanto, é um dos mais indispensáveis pilares democráticos: o direito à diversidade de opinião e liberdade de expressá-la em segurança. Estas campanhas só deixaram claro o quão equidistante está o imaginário brasileiro da cultura democrática à qual se refere o professor Larry Diamond, por exemplo. Quando desrespeitamos a opinião oposta, desqualificando-a simplesmente por se opor à nossa, com a violência que tem marcado estas eleições, desfavorecemos qualquer ambiente de liberdade e de democracia. E eu me aborreço com o quão amplamente isso se fez entre os brasileiros em 2014.

Outra coisa com a qual me aborreço é a hipocrisia dos defensores partidários. A distância entre o que disseram e fizeram há pouco mais de um ano atrás e o que dizem e fazem hoje é uma desgraça sobre sua própria memória. Se, por um lado, atacam a corrupção, por outro, todos parecem abertamente acariciá-la, se isso lhes for conveniente: um exemplo disso são as manifestações de apoio a candidatos em edifícios públicos (a Dilma em instituições federais; ao candidato a governador de Pernambuco, agora eleito, em instituições estaduais; a Aécio em instituições estaduais em Minas Gerais) – tais manifestações, além de ilegais, são inéticas, logo, corruptas; logo, contradizem o discurso de condenação da corrupção.

Bem, talvez seja pedir demais que os grupinhos militantes pensem em ética e moralidade na política; mas, deveriam!

Assim, de certa forma, todos ganhamos e todos perdemos nessas eleições. Ganhamos a oportunidade de repensar nossa “natureza” enquanto “animais políticos”, enquanto nossos diferentes pseudo-representantes “ganham” ou “perdem” as eleições. Perdemos porque (1) eles não representam plataformas tão diferentes assim; (2) não agem de forma diferente; e (3) ajudam seus eleitores a sabotarem o espírito de cooperação democrática e livre, quando os laçam uns contra os outros em nome do poder que almejam. E isso é uma sombra maldita por sobre a democracia que deveríamos, eleitores dos dois lados, rejeitar. E os dois candidatos contribuíram malditamente com isso!

Gibson

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