Permitam que eu mesmo etiquete minha crença política


É irritante esse reducionismo retórico do universo político a uma suposta direita e a uma suposta esquerda. Chega a ser insuportável falar sobre política com quem quer que seja – já que todos, automaticamente, reduzem o mundo a duas etiquetas limitadoras e deveras distantes da realidade. Pior que isso, entretanto, é a pronta identificação de “heróis” e “bandidos” políticos, algo como “anjos” e “demônios” da vida pública nacional.

Como todos aqueles que fazem parte de meus círculos sociais, também fui moldado por uma cultura política específica. Meu imaginário político bebeu de certas interpretações dos fenômenos sociais, que emergiram duma tradição política específica – tradição essa diferente daquela abraçada pela maioria de meus conhecidos. Por essa razão, forçando muito a barra no que tange ao contexto brasileiro, me declaro um “liberal democrata” – apesar de, pessoalmente, preferir não limitar o meu “eu” político a adjetivações estritas (levando em conta minha filiação a um partido que se declara “social democrata”, e minha inclinação a certas preocupações que alguns diriam “semi-socialistas”).

Aprendi, ainda pequeno, que a liberdade é algo que só pode existir no contexto de partilha dela com outras pessoas. Ou seja, para que eu seja realmente livre, você também deve ser livre. Isso, para mim, é um dogma – talvez, o mais importante dogma que abraço.

Pensar assim significa que mesmo que eu discorde de você, e mesmo que suas ideias sejam ofensivas às minhas sensibilidades, tenho a obrigação moral de defender seu direito a expô-las. Assim, se você tem opiniões contrárias à minha religião, à minha filosofia política, à minha orientação emociono-sexual, à minha herança étnica etc, você poderá dizer o que pensa – desde que dentro de certos limites de “civilidade”. Obviamente, ao menos em meu mundo utópico (o único lugar onde, de fato, as pessoas estabelecem limites às suas próprias liberdades em benefício dos outros), espero reciprocidade.

Em nome dessa liberdade de expressão, rejeito noções de limitações à opinião em nome da “não-ofensa”. Eu, um homem de orientação emociono-sexual “gay”, defendo a liberdade de qualquer líder religioso ou político – ou quem quer que seja – dizer o que quiser sobre a suposta (i)moralidade de minha orientação (desde que não conclamem seus seguidores a agredir, matar etc ninguém, claro!). Eu, que sou adepto duma tradição religiosa minoritária, defendo o direito de quem quer que seja dizer o que quiser sobre minha fé (desde que fisicamente respeitem meu lugar de culto, meus símbolos religiosos etc).

Isso caracteriza, especificamente, o meu “liberalismo democrata”.

Rejeito a noção da imposição duma suposta igualdade econômica – que demoniza aqueles mais privilegiados economicamente e, no fim das contas, supõe que todos tenham o “direito natural” às mesmas vantagens materiais (oferecendo justificativas para ações de redistribuição forçada de renda e bens). A única igualdade que aceito que seja imposta é a igualdade perante a lei e a certos “bens”/”serviços” que garantam a oportunidade de acesso àquela igualdade econômica. A educação, a saúde, a segurança, a defesa jurídica, por exemplo, são exemplos desses “bens”/”serviços”. Por meio da educação, supostamente, o cidadão pode se preparar para acessar o mercado de trabalho e conquistar o seu espaço econômico. Por meio dum serviço de saúde universalizado, todos podem receber os cuidados essenciais à manutenção qualitativa de sua vida – e a proteção à vida é, para mim, o fim essencial da lei. Por meio da segurança pública, podemos ter protegidas nossas vidas, liberdades e bens. Por meio da defesa jurídica, todos poderiam, ao menos em teoria, ter protegidos aquelas liberdades e direitos estabelecidos na lei. Isso não exclui iniciativas de provisão de outros bens/serviços sociais, desde que haja um apoio e compromisso com a autonomia econômica do beneficiado – mas dizer isso é diferente de dizer que, em situações normais, aceito que bens privados, adquiridos de forma legítima, por exemplo, possam ser desapropriados em benefício de outros; ou que as finanças de alguém possam, em situações normais, ser excessivamente taxadas em benefício de pessoas menos privilegiadas.

Obviamente, há exceções. Apesar de ser moldado pela ética do trabalho e da livre iniciativa, tenho plena consciência de que há pessoas que não poderiam, talvez nunca, “caminhar com suas próprias pernas”. E creio que a sociedade tem a responsabilidade de cuidar dessas pessoas. Mas, novamente, isso não significa que acredito na violação do direito à propriedade de outras pessoas.

Novamente, acredito e defendo a plena liberdade de expressão de pensamento, por parte de quem quer que seja - independentemente de quão impopulares sejam as ideias defendidas.

Acredito e confio na Democracia. Democracia com liberdade. Democracia com o respeito à Constituição. Democracia com o respeito à vida, liberdade e propriedade de outras pessoas.

Rejeito a violência como expressão política. Os que agridem pessoas, depredam bens, desrespeitam as leis democráticas e sabotam a Democracia não falam ou agem em meu nome, não me representam em absolutamente nada. No que concerne à Constituição, sou um conservador.

Se isso, para você, é ser direitista, ou esquerdista ou centrista; se é ser conservador ou reacionário; se é ser motivo de vergonha ou nojo... pouco me importa. O que importa é que é nisso que creio.

Gibson

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